deslumbro-me de imenso

Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.

O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.

(Yehuda Amichai)

— 1 day ago with 1 note
#poesia 

AS JANELAS

Nestes quartos escuros onde passo
dias opressivos, ando de lá para cá
procurando pelas janelas. – Abrir
uma delas será um grande consolo. –
Mas não estão em nenhum lugar, ao menos 
não consigo encontrá-las. E talvez seja melhor
assim. Talvez sua luz fosse um novo martírio. 
Quem sabe o que haveriam de revelar?

(Konstantinos Kaváfis)

— 1 day ago
#poesia 

Tudo o que te disser

São feitas de palavras as palavras
e da melancolia da
ausência da prosa e da ausência da poesia.

É o que falta que fala
do lugar do exílio
do sentido e da falta de sentido.

Tudo o que te disser
tudo o que escrever
sou eu a perder-te,

cada palavra entre
o que em mim é corpo
e é nela sopro.

Manuel António Pina, in «Todas as Palavras»

— 2 days ago with 1 note
#poesia 
O abismo


Com a sua pele de poço, 
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco 
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua, 
pensos, ligaduras, impregnados de memória, 
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram 
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo. 

- Luís Miguel Nava (1957 - 1995)

— 4 weeks ago
#poesia 

Florilegium by Alexander Marshal c.1680

— 1 month ago with 1 note
#botanical illustration 

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

[Hilda Hilst in Amavisse, 1989]

— 1 month ago
#poesia  #hilda hilst 
margadirube:

lucienballard:l’été Poema-cuadro Joan Miró 1927

margadirube:

lucienballard:l’été Poema-cuadro Joan Miró 1927

(via largerloves)

— 1 month ago with 677 notes
#juan miro 

Picasso e Lump 

— 2 months ago
#picasso 
Body/Sculpture 1972

Body/Sculpture 1972

— 2 months ago
#hans breder 

UM HOMEM E SUA VIDA (Yehuda Amichai -Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro)

Não. Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.

Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.

O Eclesiastes está enganado acerca disto.
Não há o tempo de amar e o tempo de odiar.

Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante,
rir e chorar com os mesmos olhos,

com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.

E odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
planejar e confundir, e comer e digerir
o que a História necessita de anos para fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra esquece, 
quando esquece ama, quando ama começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.

Só o seu corpo permanece sempre
um amador.

Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,

embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,

as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar

onde há tempo 
para tudo.

— 3 months ago with 1 note
#yehuda amichai  #poesia 

Amantes, vocês que se bastam um no outro, 
e conhecem a satisfação, 
a vocês eu pergunto: quem somos nós?

Vocês que avançam um contra o outro
E crescem no êxtase um do outro até ao ponto 
em que – subjugado – um implore: “chega!”;

vocês que sob as mãos um do outro 
se tornam mais abundantes do que 
a colheita de uvas de um ano bom,

vocês que às vezes até desfalecem 
quando o outro é tomado por um excesso:
a vocês eu pergunto: quem somos nós?

Eu sei: se tamanha é a felicidade para vocês, 
quando um do outro se aproxima,
é porque as carícias preservam,

e o lugar acariciado não desaparece nunca mais,
e no fundo disso está, vocês pressentem, o puro durar. 
Assim o que o abraço de vocês promete é quase a eternidade.

E contudo, uma vez vencido o susto dos primeiros olhares
e essa ansiosa espera à janela e o primeiro passeio juntos no jardim:
ainda são vocês mesmos?

Ou quando um ao outro vocês se levam à boca 
e se bebem gole a gole
será que o que é bebido não desaparece?

Não escapa 
o bebedor 
na coisa bebida?

— 3 months ago
#rilke  #rainer maria rilke