deslumbro-me de imenso

UM HOMEM E SUA VIDA (Yehuda Amichai -Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro)

Não. Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.

Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.

O Eclesiastes está enganado acerca disto.
Não há o tempo de amar e o tempo de odiar.

Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante,
rir e chorar com os mesmos olhos,

com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.

E odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
planejar e confundir, e comer e digerir
o que a História necessita de anos para fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra esquece, 
quando esquece ama, quando ama começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.

Só o seu corpo permanece sempre
um amador.

Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,

embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,

as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar

onde há tempo 
para tudo.

— 2 weeks ago with 1 note
#yehuda amichai  #poesia 

“Amantes, vocês que se bastam um no outro, 
e conhecem a satisfação, 
a vocês eu pergunto: quem somos nós?

Vocês que avançam um contra o outro
E crescem no êxtase um do outro até ao ponto 
em que – subjugado – um implore: “chega!”;

vocês que sob as mãos um do outro 
se tornam mais abundantes do que 
a colheita de uvas de um ano bom,

vocês que às vezes até desfalecem 
quando o outro é tomado por um excesso:
a vocês eu pergunto: quem somos nós?

Eu sei: se tamanha é a felicidade para vocês, 
quando um do outro se aproxima,
é porque as carícias preservam,

e o lugar acariciado não desaparece nunca mais,
e no fundo disso está, vocês pressentem, o puro durar. 
Assim o que o abraço de vocês promete é quase a eternidade.

E contudo, uma vez vencido o susto dos primeiros olhares
e essa ansiosa espera à janela e o primeiro passeio juntos no jardim:
ainda são vocês mesmos?

Ou quando um ao outro vocês se levam à boca 
e se bebem gole a gole
será que o que é bebido não desaparece?

Não escapa 
o bebedor 
na coisa bebida?”

— 3 weeks ago
#rilke  #rainer maria rilke 
dive for dreams - e.e. cummings

mergulha nos sonhos
ou um lema pode derrubar-te
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas desandem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e afasta a tua morte no bailado
deste casamento)

não te importes com um mundo
de vilões ou de heróis
(pois deus gosta de garotas
e do amanhã e da terra)
apesar de tudo quanto
respira e mexe (…)

-

dive for dreams
or a slogan may topple you
(trees are their roots
and wind is wind)

trust your heart
if the seas catch fire
(and live by love
although the stars
walk backward)

honour the past
but welcome the future
(and dance your death
away at the wedding)

never mind a world
with its villains or heroes
(for god likes girls
and tomorrow and
earth)

in spite of everything
which breathes and moves (…)

— 2 months ago
#e.e. cummings  #dive for dreams 
"Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida."
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa. (via oxigenio-dapalavra)

(via teatimedogs)

— 3 months ago with 1183 notes
Pier Paolo Pasolini & Maria Callas de férias na Grécia - 1969

Pier Paolo Pasolini & Maria Callas de férias na Grécia - 1969

— 5 months ago with 2 notes
#pier paolo pasolini  #maria callas 
Vinicius de Moraes, 1976

Vinicius de Moraes, 1976

— 5 months ago
#vinicius de moraes  #70's 
Rennie Ellis - Discover your clitoris, 1979

Rennie Ellis - Discover your clitoris, 1979

— 7 months ago
#rennie ellis  #photography 
Quando ela
tão incrivelmente linda
como você dizia
escrevia os poemas que escrevia
e eu entendo que não levássemos tão a sério os poemas que ela
tão incrivelmente linda
escrevia
sacando de dentro de uma bolsa ácida com pins coloridos e motivosop
os menores lápis de cor que vimos em toda a vida
para improvisar
a qualquer hora e sobre qualquer superfície
os poemas que ela escrevia
nós dizíamos que não havia mesmo nada ali
além do pitoresco
nada mesmo
ao menos para dois rapazes passados dos trinta
bebericando café entre desespero e risos explosivos
indo e vindo de países diversamente destruídos
e equilibrando entre os dedos
as moedas contadas
e o fim do amor
e com vontade contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade
mas refletidos no espelho de um mesmo café em Berkeley
e tendo sim provavelmente toda a razão
ao dizer que não havia mesmo nada ali
quando ela escrevia os poemas
sempre os mesmos
que ela escrevia com aqueles dedos que nos impressionavam
cheios de anéis de pedra bruta
e aqueles olhos
verde-rã
não havia nada ali
a não ser talvez um homem
sempre o mesmo
que reencontrava enfim uma garota
sempre a mesma
e dizia sou eu
e sempre uma revoada fantástica de flores repetia sim veja é ele
e no fim das contas uma
sempre a mesma
garota concordava sim sim é você mesmo e todos os seus colares
só para depois tornarem a se perder um do outro
como uma espécie de outra mágica revoada
subindo do chão da vida
e isso sim havia
em todos
em absolutamente todos os poemas dela
tão incrivelmente linda sim
e lá se vão doze
ou treze anos
e eu simplesmente nunca
os/a
consegui esquecer
Garota com xilofone e flores na Telegraph av. - Carlito Azevedo
— 8 months ago
#poesia 

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


Nuno Júdice

— 8 months ago with 2 notes